Uma chuva, um banho e um chá.

Camila Smid
3 min readSep 13, 2018

Meio sem rumo, digito e apago inúmeras vezes antes de conseguir fazer com que esse assunto saia de dentro de mim sem me cortar. Ainda não sou capaz.

Pois que corte, que sangre. Há anos carregando dores que me pareciam absurdas, hoje vejo que aceitá-las é o único jeito de passar por elas. Como quando você sai de casa sem guarda-chuva e, a dois quarteirões do seu portão, o céu se abre em águas e relâmpagos. Você só vai chegar em casa se aceitar que vai se molhar um pouco. Caso contrário, vai ficar ali, tomando chuva, ficando ilhada, molhando as meias. E eventualmente, de tão encharcada, vai pensar que nem vale mais a pena estar seca. Você acaba se acostumando.

A dor é a mesma coisa. Enquanto você não passar por ela, a apanhar nas mãos, apalpá-la e entendê-la, ela vai morar em você e se acumular. E é só ao toque das mãos e ao encontro do olhar — olhar esse que pode estar num lugar muito escuro e difícil de acessar — que conseguimos entender o tamanho dessa dor, e as formas de cuidar dela.

Flertar com a morte é pensar que a única forma de cuidar da sua dor é fazê-la cessar permanentemente. É aceitar que não doer nunca mais seria mais fácil do que doer, e se cuidar, e passar por um longo processo de cura, para eventualmente voltar a doer — no mesmo ou em outro lugar. De que adianta a busca da felicidade, se essa mesma é tão volátil e tão mais frágil que a dor?

A dor é aguda. É afiada, e firme, e se faz presente por formas e cores tão diversas que a gente custa muito a reconhecer. E eu não vou mentir: me parece muito simples dizer que "vai passar, vai melhorar", quando eu já sei tão bem que tudo passa. Tudo o que é dor, e tudo o que é doce também.

A esperança que resta é pensar que a morte vai cessar também o doce. E pior ainda: vai cessar também o seu doce na boca do mundo, e deixar no lugar um gosto salgado, aguado, rançoso.

Não trago argumentos ou soluções; eu mesma ainda busco todos os dias os meus motivos para viver. Por diversas vezes recai sobre o outro a responsabilidade de me manter viva: meus pais sofreriam, eu devo presença aos meus amigos, eu tenho ainda tanto amor para dar. Mas o que está naquele lugar meio escuro, meio difícil de acessar, é justamente o meu motivo pra viver. Acima do que eu sou para os outros, busco o que eu sou para mim.

Essa busca me mantem viva. Eu sou curiosa demais para abrir mão de uma iminente descoberta de mim mesma.

E a vida é isso mesmo. Essa busca, essa dor que vem, e que você acolhe, apalpa e tenta entender. Assim como é também o doce, quente momento de passar por toda aquela chuva e chegar em casa, tirar as roupas molhadas, tomar um banho e preparar um chá.

Força, e coragem. Você é um pedacinho muito doce no mundo, e suas dores só virão pra te ensinar. O mundo parece muito mesquinho, e as coisas realmente não fazem muito sentido. Não se preocupe tanto assim em entender, ou em pertencer. Não pense que abrir mão de si mesmo será o único sinônimo de paz.

Você vai construir o seu lugar, fazer a sua casa, e esse vazio devagarinho vai se preencher de você.

Setembro Amarelo é o mês de prevenção ao suicídio. Se a chuva estiver forte demais para você, ligue 188 ou acesse: https://www.cvv.org.br/

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Camila Smid

Deixo palavras por todos os cantos, algumas por acidente, outras por encanto.